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segunda-feira, 13 de outubro de 2008

A AURORA

A Aurora se faz.
É chegada a hora.
O tempo oportuno se anuncia,
nada pode deter o Sentido.

O rio segue seu curso.
O vento canta o Novo Hino.
O fogo mais vivo, ilumina,
e a Terra sustenta seus filhos.

Deus em toda parte
escreve a Boa Nova:
a Aurora anuncia-se no Horizonte.

A CRUZ E O CÍRCULO

Por entre o Círculo do perene,
onde o centro está em toda parte
e a circunferência em parte alguma,
a Cruz repousa dinâmica
e se con-verte em árvore da Vida.

Nela floresce o imóvel ponto,
a movimentar estrelas e astros...
nela está circunscrito o Fruto
do mutável destino humano;
em um só tempo laço e abraço,
encruzilhada e encontro.

O SÁBIO E A DIVINDADE

O sábio sabe
aquele sabor
que há na graça
de ser amigo...
aquele sabor
do equilíbrio
entre amor e rigor...
aquele sabor
dos sábios
em viver a palavra:
com-partilhando, refletindo,
unindo, ponderando.

Há nisso tudo
a presença do Divino
conosco (contigo):
da (in)visível graça,
presença sábia
que é humana
(demasiado humana)
de tão divina: Jesus Cristo,
nossa Páscoa;
nosso Irmão,
nosso Mestre,
nosso Amigo.

CANTO DAS FADAS (Hy Breasil)

Flores pequenas
em mãos de fadas
colhem florais
porções de luz.

A tarde é cedo,
a vida é breve
e o sol se põe
além... na Ilha Encantada.

A SAGA

A saga segue a converter
a espada em flor
na poesia possível de vida.

Entre uma estrela e outra
há qualquer coisa de antigo,
esse sempre tão novo
aos olhos amigos
do fogo, da chuva,
da brisa, da terra
oferta em árvores pródigas
em folhas, flores e frutos...
estações e anos.

EM UM JARDIM SECRETO

Por entre a umidade,
musgos e avencas delicadas,
o caracol descreve seu rastro.

Imóvel, o poeta contempla
a paisagem sublime de um poema
e sente um nó na garganta.

A umidade brota dos olhos,
orvalha o delicado poema
e o poeta volta-se para casa.

O ERUDITO E SEU GATO (Baseado em um poema homônimo do século IX)

O erudito descreve
com refinado cálculo
a órbita dos astros.

Seu gato, Pangur Bán,
descreve num salto
sua trajetória no ar.

O erudito e seu gato
contentes movimentam
emoções constelares.

CALIGRAFIA

Nas mãos que descrevem
o movimento da letra
há sempre algo de sagrado.
Algo como criar
universos a partir do nada,
algo como o surgir
de um milagre
aonde não se espera,
algo como
um gesto da graça:
oferta aberta,
cheia de dádiva...
Assim como
os anjos copistas
a descreverem nossas vidas
no útero livro
da eternidade.

ESCATOLOGIA I

Quando o gafanhoto
gordo, não mais voa; (Ecl. 12,5)
e o maduro fruto,
grave, a terra procura...
então se rasga o véu
que o tempo vestia; (Lc 23, 45)
e nua eternidade
reveste toda criatura.

DO AR (O Vento)

No ar aprender
o sentido da liberdade...
o que não pode conter
pois em tudo está contido,
o que tudo envolve
e nos percorre;
amniótico elemento
que nos alimenta.

Saber do ar
pomba só asa,
ave só vento,
oceano só onda;
duna inconsútil, invisível,
aonde nos movimentamos...
e somos;
o possível som
em pleno silêncio.

Movediço...
O mais líquido
dos elementos,
o primeiro e o derradeiro
dos signos
a gritar em nós...
choro e suspiro.

UMA NOVA BENÇÃO

Que a brisa,
borboleteando,
afague teus cabelos.

Que o mar,
tão indomável,
inspire teus passos.

Que a chama do amor
aqueça tua pele,
suavemente.

Enquanto a Terra,
tão materna,
cuide das entranhas de tua alma.

BENÇÃO À ÁRVORE (quando do plantio)

Deus criador,
dador de toda vida,
pai-mãe da Terra
e das estrelas;
abençoe e guarde
esta pequena árvore,
para que ela se torne
robusta e bela.

Sê abençoada
pequena árvore
com uma longa vida
cheia de graça;
testemunho
da dádiva divina.

Abençoada sejam
tuas folhas,
o teu tronco,
(as tuas flores,
os teus frutos,)
as tuas raízes;
que tua sombra seja amena
e tua presença amiga.
Sê abrigo
aos seres da terra
e repouso aos seres dos ares.

Abençoada sejas,
pequena árvore,
com muitos anos.

CONSTELAÇÃO

O condutor de almas
segue o sentido das águas:
lágrimas e rios,
marés e mares.
Ele sabe
que o fio que tece
a malha que aquece
a alma
é feito do mesmo no-
ve(h)lo que prende
os destinos
e (d)escreve a vida,
entre os vivos
e os viventes.

Ele sabe
que entre uma estrela
e outra estrela
há uma ponte
(in)visível
que en-laça tudo
a todos - ao todo
(entre força e sentido,
entre te(n)são e fluxo,
em vibr-ação e ritmo)
e que alguns insistem
(eu entre eles)
a chama(r) de AMOR.

A TERRA

Quando a Terra Mãe
encanta-se de flores,
borboletas cores,
trovas d'amour
e sonhos antigos;
(...)
o Tempo está maduro
e o Bardo (seguramente)
entoa a Canção de Dádiva-vida
e a Graça querida
é repartida entre
os filhos da Terra.

PERTENCIMENTO

O sábio sabe
a colher seus frutos
cotidianos
que a vida,
essa brisa a brincar
com o mar sem tempo,
sente que existe,
em cada momento,
por entre o fatídico golpe
e o esperado abraço,
(seja aquele gole mais doce
ou a mais amarga dose)
o mesmo e único
sinal da dádiva
a brincar com a verdade
oculta aos olhos profanos.

NOTRE DAME DE CHARTRES

A penumbra
de teu ventre,
entre o repouso
labirinto
e o peregrinar
das pedras em voo,
gesta-se,
sem bruma
ou nuvem outra,
a luz do som
azul-safira
que em silêncio
reverbera-se;
à Maria Negra
da cripta
céu candeias:
à flor da Terra
pilar eleva-se.

DA TERRA

Saber da Terra sua trilha,
conhecer seu seio
acolhedor e perene,
ser com ela sempre:
amigo, irmão, amante.

Saber seu poder, ternamente,
aquilo que há de rocha
e resistência (sua força antiga),
o que rompe o vento
e acolhe as águas com fúria.

Mas também saber da Terra
aquilo que passa... duna.
O que sustenta o fogo e úmida recobre:
vento aberto ao curso das águas,
(lago, fonte, chuva)
a ondulante areia ao sabor das brisas.

Saber da Terra seu sabor,
aquilo que há de maduro, seu fruto:
as estações e os vulcões,
os terremotos e os carvalhos,
bosques e colheitas,
o sal que tempera os mares.

Saber da Terra sua maternidade,
o ventre e o cálice, a estrada aberta,
o sentido oculto da terra
a guardar a semente, a florir das frutas;
o que nos sustenta os passos.

Enfim, saber da Terra sua materialidade;
o aprendizado constante das montanhas...
o sentido das campinas, o horizonte das praias.
Aquilo que se move, aquilo que fica:
o berço de toda vida, útero de toda dádiva.

domingo, 12 de outubro de 2008

MAR SELVAGEM

Planície semovente, movediça, como uma espécie diversa de duna, líquida, qual coaduna espaços: sublime sereia, bela e terrível.

No dentro: viscerais cardumes, decantados náufragos, abissais moradores (sem casa)... No fora: a epiderme é um horizonte ondulante que, como manadas ou bandos, estão em disparada (com medo de que mesmo? ninguém sabe!)... No entre: o que circunda é o limite impreciso, a borda que envolve o conteúdo, copo ou vaso... Por entre: exóticos cardumes (voo), alguma água, ar em movimento (serenos e trágicos)...

O espaço da planície movediça situa-se em um sempre: a carne é um suor bem temperado a sustentar toneladas de ferro e aço; e nas amplidões, as distâncias apequenam o grande (tal qual estrelas no céu nocturno). Amplidão que, como os espaços estelares, é única... indivisa e igual; e por um capricho humano constelou-se em domínios nomeados. (Mas como pode existir tal ficção chamada fronteira ou definição? Como delimitar aquilo que está aberto no espaço?)

Movendo-se selvagem (como as manadas já citadas) é um mesmo sempre: planície indomável.

PEDAGOGIA NATURAL

A terra em seu silêncio de paisagem e colinas,
no arpejo da brisa a bailar árvores antigas...
fala-nos daquela verdade que sempre existe
a rebrilhar em cada coisa e por toda parte.

Ela nos diz (silente) de suas irmãs estrelas,
nossas mães solares, e de sua sabedoria antiga;
constelada em seus brilhos a cintilar por vastos espaços.
Fala-nos, também, do Mistério que está escrito
nos grãos de areias de todas as praias;
esses pequeninos livros que, volume após volume,
tecem o tear e o tecido da vida.

(...)

Fala-nos em tudo: no movimento dos rios
e no repouso dos lagos...
na imobilidade das serras e no devir das dunas...
no ir e vir dos ventos,
nas estações das flores e chuvas;
nas mudanças perenes da lua...
Ela fala em sussurro, quase silêncio...
como aquele que cabe em uma estrela,
em uma rosa desabrochando
em poema a ser escrito,
em uma folha em branco(...)

(...)

O que ela nos fala
está no mundo oferto...
e inscrito
no coração humano.

SAUDADE

Lá aonde a vida (movimento)
tece no ar suas brisas
há qualquer coisa de repouso
enternecido de asas;

um lugar para viver,
dormir no regaço, largo,
à beira de todos os seres,
à beira de todos os lagos.

Para que depois, somente
após, junto aos seres,
vivermos a lembrar... (solitários)
a solidariedade de laços que somos:

os mundos visíveis,
as eras que temos,
as vidas que fomos,
os encontros que acon-tece-ram.